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Sexta-feira, Janeiro 27, 2023

Receitas incríveis do Tesouro dos pobres de Pedro Hispano. Um dos receituários médicos mais difundidos na Idade Média e Renascimento.

Tens de ler

Procura uma receita medieval para a queda do cabelo? Se os cabelos caírem, faça-se uma lixívia de cinzas de excrementos de pomba e lave-se. Esta é a primeira receita do Thesaurus pauperum, Tesouro dos pobres, um dos receituários médicos mais difundidos na Idade Média e no Renascimento.

A Biblioteca Pública Municipal do Porto possui o único manuscrito com uma obra atribuída a Pedro Hispano existente em Portugal, com uma peculiar versão do Thesaurus pauperum, e possui a edição dessa mesma obra que o médico de Marburgo Wilhelm Adolf Scribonius publicou em 1576.

Apesar de subsistirem dúvidas na identificação do autor, como o português Pedro Hispano, Papa João XXI, a obra teve um sucesso enorme devido à sua natureza prática de médico-em-casa, para tratamento de uma grande variedade de doenças. O autor da obra é identificado na página de rosto como “Petri Hispani pontificis romani, philosophi ac medici doctissimi / de Pedro Hispano pontífice romano, filósofo e médico doutíssimo”.

A obra tem um prólogo delicioso, pois faz um aviso a todos os praticantes da arte da cura, atente-se: «(…) exorto e aconselho o leitor a que não despreze aquilo que de desconhecido ler, nem o aplique aos corpos a tratar antes de considerar a espécie da enfermidade e a natureza do doente; e que se esforce com diligência por conhecer a natureza das coisas, a compleição e substância e, até onde puder, a virtude [oculta] de cada uma delas”

A obra cobre doenças da cabeça aos pés com receitas que vão desde a queda do cabelo, as dores de dentes e das gengivas, a paralisia da língua, as doenças do peito, as lesões dos pulmões, o excesso de fluxo do ventre, a opilação do fígado, a icterícia, a gota artrítica e a podraga, por fim a quebradura e o antraz.

A obra aborda ainda os órgãos sexuais e suas funções e disfunções, aos quais é dedicada detalhada atenção, em nada menos nada mais que 14 capítulos, apontando receitas para a inflamação dos testículos, as doenças do pénis, para a excitação do coito, a sufocação da libido/desejo erótico, a provocação da menstruação e claro os muitos impedimentos da conceção para a mulher. E a propósito apontava, dizem os que o experimentaram, como coisa certa, que a mulher que dele se servir concebe imediatamente: R/ tâmaras 1 libra, fisticos ana 1 libra, noz moscada, canela ana 1 dracma, galanga 2 dracmas, gengibre 1 dracma, açúcar meia libra; prepare-se uma confeção disto tudo junto com mel; use-se com frequência; vale de muito.

A obra tem partes deliciosas de se ler:

disse-me uma certa mulher experiente que, molestada pela frequência dos partos, comeu uma abelha e nunca mais concebe“.

Para a famosa cura da gota “tome-se uma rã à hora em que nem o Sol nem a Lua brilham, cortem-se as suas patas traseiras e atem-se com uma pele de veado; prenda-se a direita ao pé direito e a esquerda ao esquerdo; sem dúvida se curará”

E no caso de não se querer conceber” testículos de doninha macho vivo, castrados por uma mulher e envolvidos numa pele de ganso ou noutra evitam a conceção“.

O próprio autor propõe uma receita sua, dar trífera magna com vinho de decocto de mandrágora ajuda admiravelmente as estéreis a conceber. Esta é minha.”

A obra usufruiu de grande popularidade, ao longo de quatro séculos, testemunhada em inúmeros manuscritos, edições e traduções medievais e renascentistas.

Este texto foi escrito a partir da obra O Tesouro dos pobres de Pedro Hispano,
entre o século XIII e a edição de Scribonius em 1576, de José Francisco Meirinhos.

http://arquivodigital.cm-porto.pt/Conteudos/Conteudos_BPMP/0BAD%20002710/0BAD%20002710_ficheiros/BPMP_0BAD%20002710s16.pdf

A obra em linha no https://play.google.com/store/books/details?id=9Yk6AAAAcAAJ&rdid=book-9Yk6AAAAcAAJ&rdot=1